Herança de família

Eu tenho uma relação boa com meu pai. Apesar de muitos atritos, no fim do dia, ele é uma pessoa que eu respeito e que eu faço questão de ter na minha vida, independente de laços sanguíneos. Tem muito amor na nossa relação. Muita comida também. Depois que eu saí de casa, a maior parte dos momentos que passamos juntos é à mesa. E eu tenho aprendido a valorizar cada vez mais cada um deles, especialmente depois que eu percebi o quanto do meu pai tem em mim, o entusiasmo que compartilhamos por comer bem – o nariz lindo eu sempre notei.

Discordamos em pontos importantes: ele acha que cozinhar bem é um dom; eu acredito em habilidade combinada com dedicação. Mas não tem discussão quando o assunto é comer. Gostamos e praticamos.

Algumas das minhas lembranças mais fortes são nossa família à mesa. E dele sempre enchendo a boca, literalmente, para elogiar a comida da minha mãe – quem já provou sabe que nenhum louvor é exagerado. Nunca faltou ou falta uma palavra para dizer o quanto está bom, divino, sensacional, uma obra de arte, espetacular. E não é só o falar. Tem o movimento da mão, os dedos todos juntos. E o jeito que ele estica o braço para tocar o dela. Os olhos pequenos meio fechadinhos. E um sorriso completamente apaixonado.

Cada um tem jeito de amar. O dela é cozinhando. O dele é comendo. É bem bonito de ver.

Dá gosto de ver. E eu passei tanto tempo vendo que eu acho que herdei.

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