O que me alimentou em 2022 

Em 2022, eu comi. Mas depois de um mergulho tão intenso na comida, seus significados e rituais na pós-graduação de Gastronomia: História e Cultura do SENAC, pela primeira vez eu sinto que o que me alimentou não foi o pão e seus companheiros. Depois de dois anos de obsessão, a comida sentou no cantinho e me entregou apenas nutrientes, deixando outras fontes de sustento me guiar.

Teve 16 semanas de sol que me levaram a redescobrir um amor intenso pelo verão, suas cores, suores, sabores e dores. Senti vontade de usar mais cor e menos roupa, nadar, correr, caminhar, brincar, pisar na grama, tomar banho gelado e passar menos tempo num fogão quente. Bronzeei e descasquei mais vezes que qualquer dermatologista aprovaria, mas nunca estive tão linda. 

Teve também uma voz muito jovem que aprendeu a dizer mamãe e matou uma fome de amor que eu nem sabia que tinha, mas às vezes passa do ponto da saciação como aquelas últimas garfadas de arroz que te obrigam a comer e você simplesmente não aguenta mais.

E, assim como alguns pratos podem causar indigestão ou intoxicação alimentar, encontrei algumas doses de veneno de fabricação própria, uma ansiedade esmagadora e uma onda melancolia tão grande que transbordou e inundou tudo que o verão do amor da mamãe cultivou.

Acabei o ano me sentindo cheia, mas desnutrida. Consumindo as calorias vazias da depressão e da ansiedade e vomitando irritação. Insatisfeita, levantei a mão não para mandar de volta para cozinha, mas para pedir ajuda e comer melhor em 2023. O aperitivo é oxalato de escitalopram e outros seis pratos ainda estou salivando para receber, mas sei que a comida voltou a comandar, revezando o posto com o sol e um universo de novas palavras que meu pequeno está descobrindo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.